quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A ferrugem do ultimo inverno


O céu vestido de estrelas e a lua cheia enfeitavam a noite fria, da varanda ouço um “barulho” bem familiar, ergo-me da cadeira de balanço com esforço, as pernas tremulas e os cães todos eufóricos latem de alegria e um balé frenético segue-me até o portão azul, grito com a voz já não tão sisuda para que eles parem de latir, ao abrir o portão azul vejo passar um calhambeque verde anos 70 que me fez ter novamente uma imensa lembrança, a decepção se fez presente, a lágrima surge do rosto já marcado pelo tempo, não era chegada a hora.

Um grito feminino de longe emana em minha direção.

- “vai tomar seu banho, velho tartamela!”

- Parece que não se cansa que diabo vai acabar ficando doido, se é que já não está, acalme esses malditos cachorros.

Cabisbaixo e com um tom melancólico falo o nome de cada um deles, lesse mimi, lorão, Toto, Juninho jhonys play e pluto parem de latir senão todos irão acordar, seguem todos diante da campina elevada a caminho do banho.

Olhei mais uma vez para o portão azul e adentrei no banheiro, caí, e todos os seis ficaram próximo de mim. Caí como quem recebe um não diante do padre, tudo começa a ficar estranho, vejo de longe o portão azul ele já não tinha mais a ferrugem, aquele jardim pequeno do tamanho dos versos de Drummond, ele está verde e florido como de algumas casas da vizinhança, pois consigo leva os sorrisos de sonhos reunidos e de abraços firmes.

Ainda atordoado vejo aquele alpendre, no qual imaginei por muito tempo sentar ao teu lado, vendo todos os nossos netos em tardes de domingos correndo cheios de alegrias, todos os parentes reunidos para passar as férias aquele inverno foi inesquecível, vi os adultos após o jantar mais uma vez diante da fogueira cantando Raul Seixas, as crianças estavam atentas cientes que iriam ouvir o som de nossas histórias inesquecíveis, com gritos chamavam-nos de vooooó, vooooô, com olhares ansiosos pedindo como quem pedem doces por mais um conto e nós dois com os cabelos já marcados pelo tempo, mas sempre de mãos dadas em nossas cadeiras de balanço, contando as fábulas.

Tudo estava exatamente no mesmo lugar que deixei desde a ultima vez em que estive por lá, a campina já não cobria o percurso da casa, os pés de bouganville que plantamos, cada pedra, cada vazo de flor, cada canto escondendo um mistério que só nós dois sabemos desvendá-los, era como se estivesse novamente naqueles domingos com a mesa farta do almoço, O chão batido e a poeira no ar anunciavam a chegada das crianças era o sinal das boas vindas.

O pé de manga rosa ainda vive, o cheiro das flores de sapucaia ainda intensa pelo ar, aquele sapo empalhado, os discos antigos sobre a estante e as fotografias ainda deixam marcas, a bancada da cozinha, onde se colocava o café, os “mela-mela” que você fazia para as crianças após cada tarefa realizada, os bolos, tudo preparado pelas mãos maternas, tudo tão vivo em mim.

Após o tombo levantei, sacudi a cabeça deixei o banheiro como quem deixa o filho no leito, triste e ainda cambaleante fui até o portão azul, infelizmente ele estava com a ferrugem do ultimo inverno, sentei na cadeira de balanço, comecei a balançar e a balançar, a brisa sobre o corpo repousado alivia a agonia, ouço um latido, um vira-lata se esquiva, como quem se esquiva da dor, tudo esta chegando ao fim e que não iria prolongar-se por mais tempo, foi apenas uma queda e mais uma alucinação, a noite estava quieta demais, definitivamente iria se tornar apenas lembranças, hoje já não ouço o som de vozes infantis.

LEANDRO TAVARES - Baerdal

Cálice sem fim

2 comentários:

  1. O melhor dos últimos tempos...



    p.s. É "melequinha".

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  2. "Srª Anônima"
    É verdade, é melequinha. rsrs
    Obrigado por ter gostado do texto que ha muito tempo queria expor e acho que ainda ficou faltando versos para descrever o que sinto.

    Esteja sempre a vontade.
    Abraços de Baerdal

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